Escrita

E matamos as saudades, e damos valor a tudo, e assim o mundo é nosso

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Acho que descobri que é mais fácil ser vazio. Fazer aquele papel de que nada interessa ou nos afecta. De que tudo está bem e quando está mal passa, porque não interessa.
É mais fácil focar na diversão e agir como se isso fosse tudo. E não é uma diversão qualquer, nem sempre é aquela que escolheríamos se dependesse de nós, não, aquela que parece melhor aos olhos dos outros. Mais fácil, mais louca, mais desapegada. Parece mais livre.
Talvez seja assim. Talvez seja mais fácil levar as pessoas também como diversões, e tudo sem compromissos porque só dão chatice. Porque só dão chatice, certo?! Então talvez seja mais fácil estar com quem nos convém, quando convém e se não convém não estar, não tentar, não ficar. Não é tanto estar de passagem como “ser de passagem”.
E quando a vida acabar, não interessa, como nada interessou até aqui, ninguém sabe quando e como então: passemos!
Como se nada tivesse valor e assim não perdemos o rumo, ganhamos o mundo ou pelo menos parece que sim. Vivemos como donos sem nada ser nosso.
Ignorar aquela sensação de falta, aquele vazio que dá quando alguém cria raízes e nós continuamos a passar, aquela saudade da companhia de alguém num momento passado qualquer. Ignorar as realidades que nos enchem a mente, assim de repente, em horas de distracção, e nos levam a um sonho de ser e uma vontade de ficar, ou ter ficado… “será tarde para voltar para trás?” Não importa porque acordamos
depressa, e ignoramos, e fingimos para nós mesmos que aquilo não está sempre lá.
A andar de um lado para o outro, sem querer ter nada, para não perder tudo. Perdemos o rumo, perdemos o mundo e tudo o que valia e podia ter sido nosso. Ou talvez fosse nosso, antes de o deixarmos passar. Na atitude de conquista, perdemos pelo caminho. Perdemos todo o caminho, porque não há sítio para chegar.
Era tudo nosso, e nós preferimos passar. Vivemos depressa o que podia ter sido aproveitado devagar.
E agora, nada. Bem, não perdemos nada. Mas vale mais não perder, ou nunca ganhar?
Acho que descobri que era mais fácil não ir a lado nenhum, de facto, ou viver a ilusão de ir sozinho.
Porque ter pessoas ao teu lado para ir contigo, não é fácil, não é areia da praia, são pedras preciosas e raras, e caras!
Acho que descobri que ser mais fácil não é ser melhor. Que não estamos livres quando passamos, estamos livres quando somos, na autenticidade daquilo que queremos mesmo ser. Quando vivemos aquilo que não nos sai da cabeça. E matamos as saudades, e damos valor a tudo, e assim o mundo é nosso.
Seja numa madrugada de verão cheia de rostos e vozes, ou num cobertor com alguém com quem te sentes
cheio de ti.

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